Falha no SPMS – o erro crasso e a saúde quase parada

O dia 12 de junho de 2026 começou com um apagão de sistemas, desta vez na área da saúde.

Os afetados foram os sistemas de prescrição e dispensa de medicamentos. Quer isto dizer que nem médicos nem farmácias conseguiram trabalhar sequer a 40%, uma vez que de um lado não se conseguiam passar receitas e do outro não se conseguiam fazer as comparticipações dos medicamentos. Imagina o caos que causou nas unidades de saúde, sem poderem dar resposta aos pedidos de receita, sem conseguir concretizar uma consulta até ao final e sem se conseguir levantar uma receita de medicação crónica, por exemplo?

A falha afetou ambos os lados. Do lado dos médicos, enfermeiros e administrativos, houve um “apagão de conectividade” que impediu o acesso aos processos clínicos eletrónicos, antecedentes dos doentes, requisição de exames e a emissão de novas receitas pela plataforma PEM (Prescrição Eletrónica de Medicamentos). Do lado dos utentes e das farmácias, a indisponibilidade do sistema central inviabilizou a consulta e a dispensa de medicamentos cujas receitas já tinham sido passadas.

Ao que se sabe, o “apagão” teve inicio pelas 9 da manhã mas causou o pânico durante todo o dia ao afetar milhões de utentes de forma transversal nos cuidados de saúde primários (Centros de Saúde) a nível nacional mas passando para hospitais e toda a rede de ligada ao SPMS (serviços partilhados do ministério da saúde). O impacto passou a ser imediato porque temos uma tecnologia que sustenta os cuidados de saúde e quando esta falha, a vulnerabilidade do sistema fica toda exposta.

Mas porque terá isto acontecido?

Segundo a SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde), a origem do problema foi uma “falha de energia” que terá afetado as infraestruturas centrais, provocando uma quebra geral de acesso à internet do SNS.

Enquanto sociedade como podemos reagir?

A reação imediata dividiu-se entre a resiliência operacional e o alerta crítico:

Os Profissionais de Saúde: O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) emitiu rapidamente um aviso, aconselhando os clínicos a não realizarem consultas sem acesso ao histórico dos doentes, salvaguardando a segurança clínica (risco de erros de medicação ou duplicações). Onde foi possível, recorreu-se a soluções de contingência manuais, mas o fluxo de atendimento colapsou na maioria das unidades.

A População: Gerou-se uma onda natural de frustração, com doentes retidos em salas de espera e idosos sem conseguir levantar medicação crónica nas farmácias, evidenciando o quão dependentes estamos da desmaterialização de processos.

Mas.... e como se resolveu?

Por se tratar de uma falha de infraestrutura elétrica/conectividade central gerida pela SPMS, a resolução teve de ser feita centralmente. Os sistemas começaram a ser restabelecidos progressivamente ao longo do dia, à medida que a alimentação e os servidores de rede eram repostos e estabilizados para aguentar o pico de acessos acumulados.

Como o RJC (Regime Jurídico da Cibersegurança) se aplica nestes casos?

O RJC (recentemente atualizado em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 125/2025 para transpor a diretiva europeia NIS 2) enquadra a Saúde como um dos setores de “Entidades Essenciais”.

Mesmo que o incidente de do dia tenha sido reportado como uma falha física/elétrica (e não um ciberataque, como o que expôs dados de utentes em maio), o RJC aplica-se de forma rigorosa:

Continuidade do Negócio e Resiliência: O RJC obriga a que entidades essenciais como a SPMS tenham políticas de gestão de risco que prevejam redundâncias físicas (fontes de energia ininterruptas – UPS, geradores, rotas de rede alternativas) para que uma falha local não mande abaixo o país inteiro.

Notificação Obrigatória de Incidentes: Sob as regras do RJC/NIS 2, incidentes significativos que perturbem a prestação de serviços essenciais têm de ser formalmente notificados ao Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) num prazo extremamente curto (geralmente uma notificação de alerta em 24h).

Responsabilidade da Gestão de Topo: O novo regime dita que a administração e os decisores políticos são diretamente responsáveis pela aprovação e supervisão destas medidas de segurança, deixando de ser um tema puramente técnico do “pessoal do IT”.

Podemos evitar falhas sistémicas no futuro?

Para evitar que o país “pare” quando um servidor ou uma linha de energia falha, a arquitetura de sistemas críticos do Estado precisa de assentar em quatro pilares operacionais:

Redundância Geográfica e Alta Disponibilidade: Os sistemas de saúde não podem depender de um único ponto central de falha (Single Point of Failure). As bases de dados e os servidores de autenticação devem estar replicados em centros de dados geograficamente distantes (em modelo ativo-ativo). Se um “apagar”, o outro assume a carga instantaneamente.

Modo Off-line Local (Edge Computing): Os softwares dos centros de saúde e hospitais devem ser capazes de operar num modo de contingência local. Se a internet geral cair, o médico deveria conseguir aceder a uma cópia local (em cache) do histórico recente daquele doente e emitir uma prescrição assinada digitalmente de forma local, que seria sincronizada com a nuvem assim que a ligação regressasse.

Planos de Contingência Analógicos Treinados: Quando o digital falha, o papel tem de funcionar sem fricção. É necessário garantir que existem sempre blocos de receitas físicas de emergência disponíveis e que os circuitos de validação manual nas farmácias são ágeis e conhecidos por todos.

Auditorias de Stress de Infraestrutura: Testar o comportamento dos sistemas simulando falhas de energia em grande escala e ataques de negação de serviço, garantindo que os mecanismos de recuperação automática (failover) funcionam em segundos, e não em horas.

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